domingo, 25 de maio de 2014


Chegamos ao CAPÍTULO CATORZE  e a história parece que nunca mais acaba...mas já não falta muito...

   Ramiro rumou para o Sul e não se dirigiu para o lado mais frequentado do Algarve. Preferiu um local  afastado da  praia. Podia ver o céu eternamente azul, o mar sem fim e o extenso areal, porém, para  aí chegar era necessário descer uma ravina e atravessar uma ria. Aqueles obstáculos naturais que o impediam de alcançar a praia de  forma rápida levaram-no  a escolher  precisamente aquele lugar.
   Era uma aldeia altaneira construída em torno de uma fortaleza de origens árabes. Um lugar de ruas estreitas e difíceis de contornar pelos carros. As casas brancas e baixas tinham  janelas abertas que deixavam ver cortinados finos e ondulantes a dançar. Ouvia-se música suave que lembrava as sonoridades do fado e  cheirava a sol e a maresia por todo lado. Depois de uma volta, mesmo em passo lento, estava tudo visto e apreciado. Podia passar-se à localidade seguinte. Mesmo assim quis ficar.
   Observava os dois  restaurantes típicos, conhecidos nas redondezas pelas iguarias saborosas cozinhadas com primor e perfeição,  onde famílias de outras zonas algarvias vinham comer. Crianças felizes e ruidosas enchiam o ar com os seu gritinhos e risadas. Era obrigatório ir até ao forte e ler as inscrições sobre a História do local que incluía a breve biografia de um poeta árabe que lá teria vivido nos tempos da ocupação muçulmana. Ramiro gostava de ficar por ali, sentado, alternando o olhar entre o mar, a fortaleza, agora ocupada por outras forças, as policiais, do século XXI, visitantes distraídos que,  antes das refeições, ocupavam o tempo fingindo desfrutar de um programa cultural em família, e os gatos gordos e sonolentos que passeavam indiferentes aos humanos, fossem eles  forasteiros ou indígenas.
   Foi numa dessas contemplações que  foi surpreendido por Ondina que fixava o mar como se esperasse ver  uma embarcação no horizonte trazendo, sabe-se lá, um grupo de piratas, um tesouro ou o seu amor marinheiro.... Era impossível desviar o olhar daquela mulher alta,  vestida e maquilhada de forma  peculiar: saia comprida de tecido leve, blusa de renda com os ombros à mostra,  olhos bem  delineados e sombreados a preto, lábios pintados de um vermelho tão  brilhante que pareciam molhados.
   Assim que falou, Ramiro ficou maravilhado. A voz não era melodiosa, mas era profunda como se viesse de alguma gruta marinha e se tivesse misturado com o som suave das ondas a bater nas rochas.  Não conseguia explicar porquê, mas aquela mulher parecia ser uma espécie de guardiã daquele lugar, pelo porte altivo e olhar seguro com que enfrentava a brisa que despenteava os seus longos cabelos lisos. Por momentos, parecia uma estátua direita, prefeita e eterna.  Depois, olhou para ele. Ramiro esqueceu Irene, esqueceu Alex e ficou mais próximo do amor do que alguma vez estivera.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Simplesmente, capítulo TREZE...

  Em plena luz do dia, na Ribeira, de frente para o Douro e para a ponte D. Luís, no meio dos turistas tagarelas e  animados pelo sol e pelo ambiente caloroso do Norte,  o seu olhar  fixou-se  num homem alto,  de porte  altivo e imponente. Usava óculos escuros e o seu cabelo negro e curto  estava  bem penteado. A camisa branca e impecável e as calças escuras denunciavam a farda de motorista, certamente, de um autocarro que teria trazido alguns daqueles estrangeiros  que não paravam de fotografar as casas, os barcos, o rio, a outra margem  e que compravam lembranças emblemáticas daquela zona típica. Olhava pacientemente em todas as direções com uma segurança tal que  dominava  todo aquele cenário. Uma espécie de senhor poderoso que controlava o espaço só com o olhar  e a presença.
   Graças à falta de discrição de Alex, ele olhou para ela e esta, apesar de envergonhada, não desviou o olhar. Manteve-se firme em jeito de desafio: quem podia adivinhar até onde aquele confronto iria levá-la?
   Ele caminhou na sua direção e o coração dela batia desordenadamente. Ao mesmo tempo, parecia sentir um perfume intenso que a envolvia como que num forte abraço e que lhe travava  o fluxo dos pensamentos.
   - Anda perdida?
   -Sim!- foi a sinceridade a responder.  Se estivesse realmente consciente e em pleno uso das suas faculdades  mentais,  seria outra a resposta.
  Sem saber como, deu por si num simpático café a conversar com aquele estranho que exercia sobre si um fascínio mágico. Tudo à sua volta parecia parado ou, na melhor das hipóteses, a movimentar-se  em camara lenta. Ouvia ruídos de fundo, via vultos indistintos, pois  a voz e a figura daquele homem sobrepunha-se tudo o resto. Nada mais interessava a não ser aquele inusitado encontro onde falaram de histórias engraçadas de turistas deslumbrados. Não  puderam conversar muito  mais, porque era chegada a hora de levar os seus passageiros  para outo lugar. Porém, trocaram números de telemóvel para voltarem a encontrar-se.
   Enquanto ele se afastava, Alex sentiu a cabeça a andar à roda e uma tristeza quase insuportável começava a estender um manto sombrio sobre o seu coração. Ansiava pela noite, altura propícia para lhe telefonar. Não foi preciso: por volta das sete da tarde, Celestino (era este o estranho nome do rapaz, parece que em homenagem a um tio -avô que morreu jovem, logo depois de casar) telefonou-lhe para a convidar para jantar...num restaurante típico da Ribeira.
   Estranhamente, a imagem de Ramiro desapreceu da sua mente. Ramiro? Qual Ramiro?

sábado, 17 de maio de 2014

Poderíamos estar a chegar ao fim.. parte doze , CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO, mas não sei se por superstição ou porque a história ainda vai sofrer algumas reviravoltas, vamos continuar.

   Ramiro não chegou a partir para Katmandu. Passada a euforia e o entusiasmo iniciais, partilhou esta intenção com o seu amigo mais chegado, Miguel, que logo tratou de lhe mostrar que esta era uma ideia absolutamente disparatada.
  - Se queres esquecer o assunto, não precisas de ir até ao fim do mundo, neste caso, o teto do mundo, pois nem lá te vais livrar do sentimento de culpa por magoares  a Alex.
   - Mas eu também preciso de um tempo só para mim, para saber o que quero.  Preciso de encontrar uma solução para a minha vida. Só, sem a interferência de ninguém.
   Ramiro falava pausadamente como se receasse estar a falar de um assunto tão complexo perante uma criança com  dificuldade em entender um adulto.
   - Ouve, isso já parece conversa de gaja...como daqueles programas feitos  para elas, tipo moda e autoajuda. Se te queres encontrar, podes fazê-lo aqui mesmo. Em Portugal, não faltam lugares calmos e afastados de tudo... e sai-te muito mais barato. Parece que estás a querer arranjar uma desculpa para ir passear.
   Ramiro lançou-lhe um olhar ofendido. Como podia ele falar de desculpa e passeio, tudo junto, na mesma frase?
  - Há lugares únicos e só lá, em contacto com a pureza do mundo, é que consegues alguma paz de espírito, que é coisa que não tenho neste momento.
   - Não parece que esta cena do casamento te tire o sono. Em contrapartida, estás a psair-me cá um poeta...pureza do mundo, hein?- Miguel olhou-o de lado em jeito de provocação, tentava diminuir a importância das coisas para espicaçar o ânimo do amigo.
   - Não, não me tira o sono, mas tenho pensado  muito no assunto e ando preocupado. Tenho de dizer Não à Alex e isso não é fácil.
   - Mas o que eu estou a dizer é que não é necessário ir para Katmandu como pretexto para fugires à ideia , só estou a falar da ideia de casamento...Fazes isso mesmo aqui, em casa e acabas com essa chatice de uma vez por todas.
   -Talvez tenhas razão. Vou uns dias até ao Algarve e quando regressar, falo com ela e ponho tudo em pratos limpos.-
   Ramiro estava evidentemente nervoso por renegar a sua ideia, por não ter argumentos suficientemente  poderosos para sustentar a sua fuga do país. Só lhe restava apresentar uma alternativa que não fosse humilhante perante si próprio, uma cedência perante as evidências apresentadas pelo amigo.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Na DÉCIMA PRIMEIRA PARTE,  os acontecimentos se simplifiquem... aqui vamos nós outra vez...

   Alex percebeu que a falta de notícias era mau sinal, muito mau sinal. Ela sentia que Ramiro estava encurralado e assustado e, por isso, fugiria dela com todas as forças que tivesse. Mas, se possível, de forma discreta, seria uma brisa naturalmente invisível que passaria sem incomodar.
   Então, seria a vez dela de fugir: fugir de casa para não enfrentar Irene, apesar da sua ignorância sobre o assunto, fugir da sua rua para não encarar os amigos e conhecidos  e o seu olhar de comiseração ou de censura, fugir de si própria para não passar a vida a lamentar-se por ter revelado tanto de si ao ser amado.
    Era uma mulher corajosa, não sentia remorsos ou arrependimento em relação ao que tinha feito. No entanto, corava de vergonha ao ter assumido um papel tão preponderante, por ter tomado a iniciativa que poucos esperam de uma mulher. Por ter ousado.
   Decidiu passar uma semana de férias e iria passear até ao Porto. Porquê o Porto? Não sabia bem, mas talvez fosse por ser uma cidade grande, cosmopolita com muitos motivos de distração onde poderia perder-se dos seus pensamentos, esconder-se das  angústias que desabavam sobre a sua paz interior. Estava pronta para partir e cerrar com chave pesada de ferro essa história precipitada ou mal pensada, ela nem sabia.
   O que ela não desconfiava era de como era parecida com Ramiro: ambos  tomavam atitudes repentinas, sem descortinar o como ou o porquê. Essas atitude impulsivas  aproximavam-nos, eram o cerne dessa inexplicável atração.
    Mesmo assim, Alex não o culpava pela sua  ausência. Muito pelo contrário, aquela indecisão e cobardia ainda faziam com que, estupidamente, o amasse mais. Como se uma onda gigantesca de ternura tomasse conta de si e lhe desse vontade  de o abraçar, acariciar, beijar. O que não faria, pois ia passar uns dias ao Porto. O seu sentido prático tornou-a rápida.
  O ser humano é mesmo um grande mistério em si e para si mesmo. Nunca iremos conseguir entender o lado sentimental  dos homens... nem das mulheres. No meio de toda esta incompreensão, há finais felizes de histórias sem peripécias, sem coadjuvantes ou oponentes;  mas essas acontecem com alguns iluminados que veem para além da emoção.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Estamos na DÉCIMA parte...já não falta muito para sabermos com Alex se tornou Alexandra...

  Alex sabia que a sua história com Ramiro tinha de tomar um rumo fosse ele em direção a um prazenteiro jardim ou  a um abismo agreste ... Pensar nisso era muito doloroso, por isso Alex começou a ver ou a ler  tudo quanto era comédia: em filmes, em séries televisivas, em peças de teatro, em livros humorísticos, em BD para crianças e adolescentes, em programas de rádio. Tinha de anestesiar a sua mente para não pensar. E que tarefa hercúlea essa, a de não pensar! Se não pensarmos o que vamos nós fazer?  Não dizia o conhecido filósofo "Penso, logo existo"? Como existiria Alex, se não queria pensar? Isso equivalia a não existir. Mas para quê existir, se a sua vida era, naquele momento, um caos ? Alex tomou firmemente a decisão de não pensar para absorver apenas  o que há de mais cômico na existência, aproveitar o lado galhofeiro e divertido da imaginação para não encarar a sua própria vida.
  Quanto à sua irmã, Irene, esta de nada suspeitava. Quer dizer, sabia daquela espécie de namoro (Irene pensava que eles efetivamente namoravam), mas não sabia de nenhum pedido de casamento em suspenso. Alex e Irene não eram irmãs muito próximas, não partilhavam segredos, só a mesma casa e algumas refeições e, de vez em quando, a televisão ; trocavam breves impressões sobre aspetos banais do quotidiano, tinham alguns gostos musicais semelhantes, mas nada mais do que isto. Daí não haver lugar para invejas ou ressentimentos. Ninguém via rivalidades ou intromissões  na vida pessoal de cada uma. Tudo parecia passar à margem da sua vida em comum. Assim, menos um problema para Alex...que alívio tão reconfortante e compatível com a aquela alienação intencional  que se instalara !
  Entretanto, Ramiro parecia ter tomado uma decisão: Katmandu. Aconteceu-lhe sonhar com a palavra. Ou ouviu-a, de manhã, nas notícias que o despertavam bem cedo e a palavra não saiu da sua cabeça, durante dias. Os mesmo dias em que não viu, não telefonou, não enviou nenhuma mensagem por telemóvel ou Facebook para Alex. Nada. Só uma procura frenética na internet sobre a geografia, a localização, a comida, os costumes, os lugares onde comer em Katmandu. Como chegar e onde ficar. E, também, pensou, pois Ramiro escolheu pensar e muito, na forma como havia de rejeitar aquele pedido de casamento. 
   Finalmente, a decisão estava tomada: não haveria casamento, nem namoro, nem relação assumida. Tudo se tinha passado ao contrário do que seria a ordem natural das coisas, por isso, era um péssimo presságio para os acontecimentos futuros. Ramiro era muito supersticioso e, em sua opinião de homem avisado, tudo aquilo parecia contra natura. Cabia-lhe a si por um ponto final parágrafo, mudança de linha naquela história às avessas. E partir para Katmandu!

terça-feira, 6 de maio de 2014

E esta história  já vai em nove momentos... devagar se vai ao longe. Esta é a NONA PARTE!

  Há perguntas que nunca se devem fazer, perguntas inconvenientes e embaraçosas cujas  respostas podem provocar um desconforto insuportável  a quem pergunta e a quem responde.
  Ramiro  ficou a saber o que é levar um soco no estômago sem saber de onde este veio. O choque foi de tal forma  intenso que só conseguiu  arregalar os olhos. E assim ficou durante muito tempo.
  Alexandra ainda não sabe o que estava a pensar quando fez semelhante pergunta. Há atitudes que não se explicam, há palavras ou frases  que ninguém entende, nem o autor nem  o ouvinte.
  E esta pergunta breve e de palavras fáceis é tudo menos simples. Encerra  um mundo de tantos  significados desconhecidos! Por isso, é que as pessoas  não andam por aí a fazer pedidos de casamento a torto e a direito.
   É claro que Alex se  sentiu, de imediato,  bastante envergonhada. As palavras tinham saído da sua boca, sem qualquer tipo de autocensura moral ou emocional, sem qualquer tipo de pudor pela sua própria intimidade. Como se não tivesse  controlo sobre o que pensava e dizia . Como se outra e não ela, tivesse poder sobre si e a estivesse a  manipular. Ou, provavelmente, estes pensamentos não passavam de desculpa para a aparente leviandade ao colocar, de forma repentina, uma questão tão delicada.
  - Não sei. -disse, por fim, Ramiro depois de longos minutos sufocantes para Alex.
  - Não precisas de responder já...- hesitou - nem nos próximos dias.
   Ramiro estava triste e abatido. Então, ela sentiu pena dele por lhe colocar  um fardo  pesado que parecia não suportar. Pena: não devemos sentir pena da pessoa que amamos, pois não?
   - Só gostava  que pensasses nessa...- voltou a vacilar - hipótese.
   Lindo! Uma proposta de casamento deve ser,  supostamente, um gesto marcado por romantismo, amor, emoção. E ela fala de hipótese! Só podia ser  a desilusão a falar.
    O  que é que  esperava ? Que ele a tomasse nos seus braços, ao estilo das comédias românticas, com palavras doces e cheias de sentimento?  Já agora com uma banda sonora de fundo.
    Sem mais conversas, Ramiro, levantou-se, deu-lhe um beijo na testa e saiu. Um beijo na testa? Que raio de atitude era esta?

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Chegamos à oitava parte, ao OITAVO CAPÍTULO...

   Alex, a nossa doce Alexandra,  confundia a atenção e admiração de Ramiro com Amor. Mas, se o Amor é um sentimento tão nobre, tão poderosamente avassalador,  como pode ser confundido com outro sentimento? Como pode alguém interpretar, de forma errónea, os sinais e os comportamentos do outro? Não há um espelho para o Amor, não há um código acessível.
   O Amor é um mistério divino, é a suprema criação que pode redimir o Homem, por isso é tão difícil de encontrar ... Instintivamente sabemos que, quando tudo falha, a única resposta possível para os dilemas  da Vida é o Amor. Mas onde está escondida a chave para este enigma?
  Alex, a renovada Alex, passou a ser irrequieta o que espantava quem a conhecia. Era ela quem convidava  Ramiro, quem tomava iniciativa  para qualquer programa a dois, para qualquer rasgo romântico ou atitude inaudita. Sentia-se inspirada, tinha ideias criativas  que o surpreendiam e ele limitava-se a aceitar, a dizer a tudo que sim, a sorrir placidamente a cada gesto, sempre conformado, sempre paciente. Olhava para ela, pensava em Irene, ali tão perto, e era quanto lhe bastava para se sentir feliz.
   E os dias foram passando, iguais para ele, diferentes para ela.
   Ele esperava sempre o inesperado, e já não se admirava com as atitudes e os gestos dela. Parecia que era sua obrigação servi-lo nos sentimentos, como se fosse natural  que ela sentisse  Amor a dobrar.
   Ela, por sua vez,  concentrava toda a energia dos seus dias a alimentar esse Amor que julgava ter descoberto. Sentia  uma alegria análoga à  dos exploradores, quando estes encontram o mapa do tesouro. Tinha o esforço, a convicção, a fantasia essenciais para planear os acontecimentos até à perfeição e vivia-os com intensidade.
  Os dias continuaram a passar, sem sobressaltos. Ramiro era atencioso, elogiava, dizia palavras simpáticas e banais. Alex era imaginativa, descobria novos lugares para explorarem a dois, escrevia pequenos e singelos poemas que eternizava em pequenos e delicados cartõezinhos que, ternamente, colocava no seu casaco, na sua pasta , dentro dos seu livros ou cadernos de apontamentos.
  Até que um dia, levando a surpresa ao limite e, por isso, sem pensar, fez-lhe uma pergunta:
   - Queres casar comigo?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

 E, para criar um ditado novo: "não há seis sem sete"... já podem ler o  SÉTIMO CAPÍTULO ...

   Para Alex, habituada a ficar sossegada, no seu mundo estagnado e sem novidades, aquele sentimento completamente inusitado agigantava-se e  assustava-a. Assim, não era de estranhar que tivesse direito a  passar por todos clichés do estado amoroso: palpitações, um certo "friozinho" na barriga, momentos de ansiedade misturados com euforias súbitas e inexplicáveis, falta de sono, falta de apetite e tudo o mais que  possam associar ao momento em que nasce a paixão...ou em que pensam em tal emoção.
   Quanto a Ramiro, esse parecia firme no seu encantamento por Irene e na simpatia pela sua irmã.
   Ela,  nunca chegaremos a saber se de forma deliberada ou inconsciente, permanecia alheada das reais intenções do seu amigo.
  Este,  rapaz inteligente,  começou a perceber  como funcionava aquele jogo em que Irene se mantinha sempre em vantagem, pois o objeto adorado nutre-se do fascínio que o outro sente, e suga-lhe toda a energia até ficar completamente refém do amor.
  Certo dia, magnífico dia, descobriu a irmã e toda a atenção e admiração que esta lhe dispensava. Foi uma autêntica revelação. Então, passou a alimentar o amor de Alex, pois ela  era o mais próximo que podia ter de Irene: era sua irmã, partilhava o seu ADN, passava a saber o que aquela fazia, quais os seus projetos, o que  sentia. Enfim, Alex era a solução possível para atenuar a dor do seu amor não correspondido. E não se sentia minimamente incomodado por satisfazer esta forma de egoísmo.
   Sem dúvida, o amor é o sentimento mais contraditório e confuso que existe. Ramiro amava Irene, ou, pelo menos, pensava amá-la, mas contentava-se com o amor de Alex. Alex acreditava, ingenuamente, que o amor se alcança sem esforço e que tinha encontrado o seu amado. Irene ficava contente por ver o seu melhor amigo e a sua irmã a aproximarem-se e, quem sabe apaixonarem-se, pensava. É um  facto, o Homem tem uma propensão inequívoca para o erro, no que diz respeito ao seu lado sentimental. Tudo o que é do foro das emoções, dos afetos ou dos desejos deixa o ser humano tão baralhado e confuso, que começa desenhar castelos utópicos que o deixam em êxtase prazenteiro, mesmo que seja ilusório.
  E a história continua de forma previsível: começaram a sair a dois para jantar, ir ao cinema , tomar café, a rotina comum dos casais que começam a consolidar uma  relação. Rapidamente, vieram os elogios fáceis, os beijos, as carícias mais ou menos ousadas... mas nem uma palavra de compromisso, nem um sinal de namoro assumido perante os outros.
  Ramiro sentia-se bem nesta tipo de relação. E Alex? O que pensava e o que sentia em relação a esta mistura de namoro e amizade que não era  nem uma coisa nem outra?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Já sei o que esperam, querem saber o que vai acontecer entre Alex e Ramiro. VAMOS À SEXTA PARTE .

   Ainda dizem que as pessoas não mudam. Pode ser verdade...em alguns casos.
   Diz o senso comum que certos processos de sofrimento físico ou psicológico abalam as estruturas de ser humano que  perde o rumo e a lucidez. Depois de tudo isto passar, as pessoas dizem-se transformadas e prontas para viver esta segunda oportunidade com outro fôlego.
   Todavia, também não é sempre assim. De facto, apesar de algumas  pensarem  que se sentem  renovadas,  só têm forças para voltar à forma original! Um rio, por mais caudaloso ou agitado que seja,  desagua sempre no mar, os pássaros repetem as mesmas rotas, todos os anos, sensivelmente, na mesma altura, ainda que um ou outro se perca do bando. Até a mãe natureza gosta de rotinas e de, sabiamente, repetir os seus movimentos.
   Outras  pessoas aproveitam o embalo do caos, agarram nessa energia em bruto e moldam-na em favor de uma nova criação, em forma de ressurreição.
   Alexandra, neste momento Alex, pertence ao grupo dos que encetam grandes mudanças. Foi, então, o momento da  sua rebeldia: resolveu mudar de vida. Como diz a canção:" Muda de vida, se não estás satisfeito" .
   Confusos? Eu esclareço. No presente, já sabemos, Alexandra é uma mulher confiante e segura de si mesma, que sabe ler as pessoas e os acontecimentos, como forma de se esconder,  atempadamente, das dores da vida. No passado não muito longínquo, Alex era conformada e quieta em relação ao que a rodeava, fossem pessoas ou acontecimentos. Porém, no dia em que conheceu quem era Ramiro, tudo isso mudou e sentiu-se impelida a tomar um atitude, fosse ela qual fosse.
   Ramiro. O que dizer dele? Não há muito para dizer. Não tinha atributos especiais que o pudessem qualificar como atraente. Era um homem alto, magro, de olhar tímido e gestos vagarosos. e estava apaixonado por Irene, sem que esta suspeitasse, embora fosse óbvio para muitos daqueles que os conheciam. Ingenuamente, refugiava-se na ilusão de que ele era o único que  sabia da sua paixão. Daí o à- vontade  e o desejo atencioso ao falar com Alex, que interpretou aquela simpatia e atenção como uma forma de aproximação e interesse pela sua própria pessoa...
   É engraçado o poder que um equívoco tem!
   Passaram a encontrar-se mais vezes. O trabalho acabou, mas havia saídas de amigos com jantares, idas ao cinema, encontros no café e Alex continuou à espera, não do que a vida teria para lhe oferecer, mas sim do que ela própria viria a fazer, fazendo depender a atitude crucial, a da declaração do seu amor por Ramiro, de um gesto dele mais convincente para ela poder, finalmente, agir.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Lá vai o QUINTO mini-CAPÍTULO ...desculpem-me o neologismo criado à pressa!

   Tudo isto poderia ter acontecido, quando Alexandra era Alex, muito jovem , muito imatura e sem saber qual o  caminho a trilhar. Esta falta de ambição  própria dos chamados "verdes anos" não parecia incomodá-la minimamente. Tal como agora,  não tinha  muita pressa e a indecisão daquele momento fazia parte de si. Tinha muito tempo para tomar opções, entretanto, agora era o tempo da espera e ela usufruía-a sem remorsos.
  Foi precisamente nesta altura  que ele apareceu.
  Ah! Já sei o estão ou vão pensar: era inevitável , previsível até que aparecesse um homem nesta história de uma mulher aparentemente  ponderada. Na vida de uma mulher, há sempre um homem...ou vários. E esses não podem ser omitidos destas narrativas quase biográficas.
   No caso de Alexandra, enquanto Alex, também foi assim. Nessa fase de estagnação e  de paragem sem rumo à vista ou correrias desenfreadas, surgiu esta surpresa sob a forma de um homem praticamente desconhecido que entrou em sua casa, pela porta da frente e pela mão da sua irmã mais nova.
  Ramiro era um colega da faculdade de Irene que  ia lá  a casa por causa de um trabalho. Quando os seus olhares se cruzaram pela primeira vez... não aconteceu nada. Nem faíscas de fogo de artifício, um "friozinho" ou um baque no estômago, nem sequer um revirar de olhos. Nada. Apenas indiferença e o  esquecimento instantâneor.
   Contudo, dias depois, quando se viram forçados a falar um com o outro (  da primeira vez, Ramiro apenas cumprimentara Alexandra com um "Olá" praticamente impercetível ),  pois Irene tivera de se ausentar inesperadamente, foi como se os sons das suas respetivas vozes os despertassem para a realidade do outro. Era o beijo da Bela Adormecida e do Príncipe convertido em sons que os acordavam.  Começaram a conversar e  um fascínio mútuo que  começou a crescer.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

E, de novo, o momento pelo qual todos ansiavam....o QUARTO CAPÍTULO  da "saga" da Alexandra.

   O facto é que Alexandra é feliz, porque se sente feliz. Baralhados? Eu passo a explicar: Alexandra vive no modo "PROTEÇÃO", aplicando-o, como já se viu, tanto à sua vida profissional como pessoal. Vai contornando as experiências, vai vislumbrando a dor das desilusões, vai debicando as novidades, sem nunca mergulhar verdadeiramente nelas, privando-se, tanto quanto possível de tudo quanto possa ser prova de sofrimento.
   Muitos continuarão a interrogar-se: mas como? Sem sofrimento não há crescimento pessoal, sem  frustração não há evolução interior, como pode esta mulher abster-se das agruras, dos desgostos?
  A vida é feita de escolhas. Trata-se de um cliché, mas é verdade! Não há volta a dar às verdades incontornáveis. E agora que entrei num pensamento circular, podemos permanecer na nossa curiosidade insatisfeita. Não é possível que exista uma pessoa assim. E Alexandra não parece ser fria, insensível ou crua.
  Então, houve uma fase, uma etapa em que ela foi  uma outra.
  Depois,  em algum momento da sua vida , de forma súbita e impulsiva  ou ponderada e lenta, ela  decidiu  transformar-se e escolheu ser diferente. Fez esta opção e não parece arrependida. Qual o facto marcante que se tornou o ponto de viragem da sua existência? Seria fascinante que esse acontecimento fosse um caso amoroso, um paixão vibrante mas infeliz que apimentasse as nossas fantasias.
   É fascinante como  o amor sabe despertar em quem o vive ou a quem ele assiste um frenesim e uma curiosidade quase insaciável. O amor é um assunto que nunca se esgota, nunca se  acaba, é por isso que é eterno...

domingo, 27 de abril de 2014

E um novo capítulo.. O TERCEIRO ...

   Não confundam a firmeza dos seus gestos com a solidez fria de uma estátua esculpida pela ausência de emoções.
   Podíamos fantasiar com uma vida sem os buracos irritantes que nos despertam da rotina nos levam a sentir medo de uma queda, as  lombas inconvenientes ou os desvios temporários que obrigam a mudar de atitude, a moderar a velocidade das ações  ou a contornar os obstáculos que podem surgir sem aviso prévio, forçando-nos a alterar rotas...
  Na condução do autocarro ou da sua própria vida,  olhar para trás pelo espelho retrovisor...do carro e das memórias torna-se imperioso.
  No entanto, ela atribui a estes imponderáveis  apenas a importância de um breve  momento, depois não pensa mais no assunto, não esgota o seu ânimo nem se afoga em remorsos, em alternativas que poderiam ter acontecido, mas que  não chegaram a realizar-se. Quanto aos eventuais acidentes, sejam rodoviários ou existenciais, vive a proteção e a segurança como grandes certezas da sua existência humana. Cuida da sua vida, dos seus sentimentos como do seu próprio autocarro. Faz tudo com grande cuidado e atenção. Vigia os movimentos e atos dos outros condutores para evitar que eles a abalroem. Foge dos incautos e afasta-se das manobras agressivas, evita magoar os outros ou magoar-se a si própria.
   Perguntarão vocês: mas, então, isso é VIVER? Onde está o risco?  Viver assim será viver plenamente?
   Sim, é uma certa forma de vida. Pode não ser essa a nossa maneira de acompanharmos este mundo, porém, ser assim previne muitos desastres...

sexta-feira, 25 de abril de 2014

  Aqui vai a CONTINUAÇÃO, isto é como quem diz , UM SEGUNDO CAPÍTULO...

   É uma mulher num mundo novo, um mundo dominado exclusivamente pelos homens, durante muito tempo. Estes, habituados ao cliché das mulheres serem donas da emoção, pensavam que elas  não poderiam controlar um volante ou usar um travão no ritmo frenético da capital. Já para não falar das diferenças do olhar sobre a vida, da linguagem, dos gestos, das formas de encarar o Mundo  que tornariam insuportável  a ideia de uma mulher num cargo masculino. Tudo estava bem desde que esses tudo   estivesse bem separado. Profissões exclusivas para homens e  profissões próprias para mulheres.
   Mas, o Poeta não se enganou sobre os caprichos das mutações: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"... será sempre assim: o Homem sentirá sempre vontade de transformar o que está fora e dentro de si. De forma espontânea ou forçada!|
   Agora, ali estava ela a comandar o seu possante autocarro, com a firmeza e determinação que impunha respeito a passageiros, transeuntes ou simples passeantes que, como eu, ainda se admiravam por ver uma mulher a conduzir uma autocarro.
   Gostava que ela se chamasse Alexandra, pela força que o nome carrega dentro de si. Lembra feitos heróicos e guerreiros, ousadias e proezas face a opositores cruéis e sanguinários. Sugere cidades luxuosas e imponentes governadas por senhores desejosos de mostrar a opulência e a magnitude do seu poder.
   Alexandra vai longe. Já não vejo o seu autocarro. Vai longe no seu caminho e na sua vida, porque não para, vai fazendo o seu percurso e o seu caminho é o mesmo caminho daqueles que, de certa forma, guia, sejam eles os passageiros ou aqueles com quem partilha o seu afeto.
   Sem ela, todos  terão mais dificuldade em  chegar ao seu lugar. É ela quem os conduz ao seu destino: emprego, casa, encontro , tudo o que faz parte do mundo...
    A sua profissão permite-lhe ajudar os outros, mesmo que estes nem se apercebam da importância que ela tem nas suas vidas.  Eles nem reparam que, naqueles momentos, é ela quem dirige os seus passos, é ela que, por momentos, dirige as suas vidas. Nesta ignorância indiferente, ela sente-se feliz,  pois essa forma de poder não ofende nem humilha ninguém. Não há  lugar para sobranceria ou arrogância. Só  para calma, serenidade e determinação que transporta  para a sua própria vida.
   Ela conhece muito bem  o seu próprio caminho, as suas paragens, o seu destino. A determinação e confiança são regras de condução para a sua vida.

CONTINUA...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Aqui vai o primeiro capítulo (vou chamar-lhe assim para  parecer mais "bonito") do meu primeiro texto, a estreia. Eu não sei se vocês a aguardam, mas eu, certamente, anseio por mostrá-la.

   Olhei, ocasionalmente, para aquela mulher que conduzia o autocarro de passageiros, em plena Lisboa.
   Sem pressas, muito direita no seu assento de condutora, de semblante calmo, gestos vagarosos e controlados. Toda ela é a imagem da segurança e da serenidade. Toda ela compõe um quadro de harmonia dentro de uma  máquina fria e desinteressante. Toda ela é a imagem de uma confiança em si mesma  tão suave que passa completamente despercebida perante a cidade.
   Dirão: quem faz da condução a sua vida, não se pode permitir a ter outra postura, correndo o risco de  desmoronar física e psicologicamente. Mas todos sabemos que, na vida, não há só um caminho...e ela poderia ter-se tornado numa outra mulher. O stress do trânsito, o tráfego intenso das hora de ponta que já não se regem  pelas entradas e saídas dos empregos, poderiam ter condicionado a sua forma de ser, levando-a  à agitação, ao desespero  e ao impropério desabrido.
  Mas isso não aconteceu...porquê?

CONTINUA
Olá...outra vez.
Nem dei conta que podia atualizar o que escrevi...e não é que atualizei mesmo?!?!?!

Sejam bem-vindos à minha casa de escrita, ao meu mundo simultaneamente real(porque está aqui, perante vós) e imaginário ( pois vai ser o fruto da minha imaginação).
É aqui que vou partilhar, com quem tiver  tempo -  esse bem sobejamente precioso -  disponibilidade, paciência e gosto pela(s)  palavra (s),  as minhas  ideias que serão apresentadas nas mais variadas formas.