domingo, 25 de maio de 2014


Chegamos ao CAPÍTULO CATORZE  e a história parece que nunca mais acaba...mas já não falta muito...

   Ramiro rumou para o Sul e não se dirigiu para o lado mais frequentado do Algarve. Preferiu um local  afastado da  praia. Podia ver o céu eternamente azul, o mar sem fim e o extenso areal, porém, para  aí chegar era necessário descer uma ravina e atravessar uma ria. Aqueles obstáculos naturais que o impediam de alcançar a praia de  forma rápida levaram-no  a escolher  precisamente aquele lugar.
   Era uma aldeia altaneira construída em torno de uma fortaleza de origens árabes. Um lugar de ruas estreitas e difíceis de contornar pelos carros. As casas brancas e baixas tinham  janelas abertas que deixavam ver cortinados finos e ondulantes a dançar. Ouvia-se música suave que lembrava as sonoridades do fado e  cheirava a sol e a maresia por todo lado. Depois de uma volta, mesmo em passo lento, estava tudo visto e apreciado. Podia passar-se à localidade seguinte. Mesmo assim quis ficar.
   Observava os dois  restaurantes típicos, conhecidos nas redondezas pelas iguarias saborosas cozinhadas com primor e perfeição,  onde famílias de outras zonas algarvias vinham comer. Crianças felizes e ruidosas enchiam o ar com os seu gritinhos e risadas. Era obrigatório ir até ao forte e ler as inscrições sobre a História do local que incluía a breve biografia de um poeta árabe que lá teria vivido nos tempos da ocupação muçulmana. Ramiro gostava de ficar por ali, sentado, alternando o olhar entre o mar, a fortaleza, agora ocupada por outras forças, as policiais, do século XXI, visitantes distraídos que,  antes das refeições, ocupavam o tempo fingindo desfrutar de um programa cultural em família, e os gatos gordos e sonolentos que passeavam indiferentes aos humanos, fossem eles  forasteiros ou indígenas.
   Foi numa dessas contemplações que  foi surpreendido por Ondina que fixava o mar como se esperasse ver  uma embarcação no horizonte trazendo, sabe-se lá, um grupo de piratas, um tesouro ou o seu amor marinheiro.... Era impossível desviar o olhar daquela mulher alta,  vestida e maquilhada de forma  peculiar: saia comprida de tecido leve, blusa de renda com os ombros à mostra,  olhos bem  delineados e sombreados a preto, lábios pintados de um vermelho tão  brilhante que pareciam molhados.
   Assim que falou, Ramiro ficou maravilhado. A voz não era melodiosa, mas era profunda como se viesse de alguma gruta marinha e se tivesse misturado com o som suave das ondas a bater nas rochas.  Não conseguia explicar porquê, mas aquela mulher parecia ser uma espécie de guardiã daquele lugar, pelo porte altivo e olhar seguro com que enfrentava a brisa que despenteava os seus longos cabelos lisos. Por momentos, parecia uma estátua direita, prefeita e eterna.  Depois, olhou para ele. Ramiro esqueceu Irene, esqueceu Alex e ficou mais próximo do amor do que alguma vez estivera.

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